Ex-catadora de papel mantém biblioteca com 22 mil livros


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Em 1998, a mineira Vanilda de Jesus Pereira sofreu um derrame cerebral. Impossibilitada de retomar o trabalho de babá, passou a recolher papéis nas ruas. Havia um tipo, porém, que não servia à reciclagem: os livros. Hoje seu acervo reúne cerca de 22 mil títulos, disponíveis na biblioteca Graça Rios, que fundou na favela de Paquetá, em Belo Horizonte.

Desde muito cedo Vanilda manifestava interesse pela literatura, apesar de ter estudado apenas até a sexta série. O pai, analfabeto, achava leitura coisa à toa. Mulher tinha que aprender a cozinhar e a ser boa esposa.

Em 1977, aos 14 anos, a menina foi trabalhar como babá. Certo dia, esqueceu de fazer uma tarefa. A patroa encontrou-a com um livro aberto: “Onde você quer chegar lendo?”, esbravejou. Foi demitida. Com o dinheiro que dispunha, tratou de comprar o livro da discórdia – Escrava Isaura. “Queria terminar de ler a história, uai…”. Quinze dias depois, a prima da ex-patroa a contratou. Além do novo emprego, ganhou passe livre para a biblioteca da casa. “Aqui você pode ler tudo.”

A cada salário, mais livros. Guardava-os embaixo da cama. Com o tempo, o espaço ficou pequeno. Em vez de livrar-se dos títulos, alugou um barraco para abrigá-los. Em 2002 um jornalista descobriu o espaço. Só então Vanilda deu-se conta de que possuía uma biblioteca. Aprendeu a catalogar os livros com a escritora Graça Rios (“Coloquei seu nome na biblioteca para homenageá-la em vida”), e passou a receber doações de outras entidades.

Hoje, além de livros, a ex-catadora de papel, ex-empregada doméstica e ex-babá oferece alimento, aulas de reforço escolar e pré-vestibular para 130 crianças e jovens, além de alfabetizar adultos, oferecer sala de informática e ateliê de costura. “Nada foi planejado. Fui fazendo o que era possível”, reforça.
O empenho se expandiu além dos limites da favela. Com a ajuda de voluntários, leva almoço para os acompanhantes de enfermos de hospitais públicos. “Muitos vêm do interior, com pouquíssimo dinheiro, e essa comida é muito importante para eles.” Para arrecadar fundos, promove seis eventos por ano, como jantares e desfiles de moda.

O projeto foi um dos 15 finalistas do prêmio Vivaleitura 2008. Ainda que não tenha se sagrado vitoriosa, Vanilda alegra-se com o reconhecimento. Só acha estranho quando não entendem sua dedicação. “Só por ser pobre e ter pouca cultura não posso ajudar os outros?”. E faz questão de encerrar a conversa com uma frase de Madre Teresa de Calcutá. “É assim: ‘Não tem pobre que não tem o que dar e nem rico que não precise receber’.”

fonte: Almanaque Brasil

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