Por que falamos portugues?


Pouca gente sabe, mas durante mais de 200 anos, desde o descobrimento até meados do Séc. XVIII, o Brasil não falava exatamente português.

Por: Luciano Valente e Laila Vanetti

Muito provavelmente esta pergunta nunca tenha ocorrido para nós brasileiros. Mas quem já viajou um pouco pela Europa ou América do Sul pôde reparar a diversidade lingüística destes lugares. Na Espanha, existe o espanhol oficial, de Madri, mas também o catalão da região de Barcelona, o Galego da Galícia, o idioma da região do país Basco etc. Não são sotaques, são línguas com vocabulário, grafia e pronúncia diferentes, muitas vezes ininteligíveis entre si (especialmente para estrangeiros). Nossos vizinhos, como Paraguai, Peru ou Chile, possuem uma grande parcela de sua população que fala línguas indígenas.

Neste contexto, retorno à pergunta, por que falamos português? Um país tão grande, com uma área muito maior do que a de vários países europeus e sul-americanos juntos. Por aqui, existem pequenas tribos de índios que falam línguas indígenas. Mas, inegavelmente, a língua portuguesa domina totalmente os nossos quase nove milhões de quilômetros quadrados. Por que se, como vimos, países muito menores têm uma diversidade incrível? Natural seria que tivéssemos também… E tínhamos!

Pouca gente sabe, mas durante mais de 200 anos, desde o descobrimento até meados do Séc. XVIII, o Brasil não falava exatamente português. Os jesuítas eram os encarregados de catequizar os índios e faziam isto usando as línguas indígenas, para depois ensinar a eles o português. Com o tempo, esse misto da língua portuguesa com as locais deu origem ao que ficou conhecido historicamente como língua geral, uma mistura de português com línguas indígenas.

A língua geral era a usada em todo o território brasileiro, variando de lugar para lugar. Seu vocabulário era influenciado pelas diferentes variedades indígenas de cada região. O português puro e europeu era pouco utilizado, restrito a documentos oficiais de estado e a nichos de portugueses nas cidades. Este era o panorama lingüístico brasileiro. Um exemplo de como era esta mistura pode ser visto na poesia de Gregório de Matos, do Séc. XVII. O uso de expressões indígenas, muitas vezes, torna o texto incompreensível sem um bom glossário.

Esta situação nunca incomodou Portugal. Uma política lingüística não era prioridade para a coroa. Mas um fato político mudou isto e deu força à língua portuguesa. Os jesuítas eram os responsáveis por quase toda a educação no Brasil e em Portugal. E eles conviviam bem com a língua geral e o português, tanto que esta situação se estendeu por mais de 200 anos. Entretanto, por volta de 1750, a Espanha se aproximou muito da ordem dos jesuítas.

A coroa portuguesa não via com bons olhos esta união e temia perder territórios, principalmente os da região amazônica. Então, um representante do rei aqui no Brasil, o Marquês de Pombal, tomou medidas contra os jesuítas. Eles foram expulsos do nosso país (então, colônia). E o uso da língua geral, dominada pelos jesuítas, mas não pelos portugueses, foi proibido. Em 1757 foi estabelecido, pelo governador da província do Grão-Pará (atual Pará), irmão de Pombal, o Diretório dos Índios, afirmando que “A língua do Rei deve ser a língua oficial de todas as instituições”.

A partir desta data, o ensino de português foi institucionalizado pelo Estado e seu uso era obrigatório em escolas, repartições públicas, igrejas, enfim, em todo o território. Houve um silenciamento da língua geral, que desapareceu. Hoje, existem poucos registros dela, pois ela era basicamente oral. Mas este interessante fato histórico revela uma política lingüística da coroa portuguesa, instituída por outras questões políticas, mas que deu ao Brasil uma característica muito peculiar: a unidade lingüística de uma extensa área territorial. Não se sabe o que teria acontecido sem o Decreto do Marquês de Pombal, mas talvez, existissem no Brasil várias línguas, oriundas da mistura entre o português e as línguas indígenas. Este é, simplificadamente, o resumo de um fato histórico interessante e que explica porque hoje somos quase 190 milhões de falantes de português no Brasil.

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3 Respostas para “Por que falamos portugues?

  1. gostei muito do comentário falarei na defesa da minha especialização

  2. quando crescer quero ser professora de históriame ajude por favor?

  3. Gostei muito do texto,porém não repondeu bem o que eu queria saber,mas adorei ter lido.Lembrei que dei este assunto na faculdade.
    Sou professora línguistica.

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